03 Mai 10
A Primavera assume a sua plenitude, acomoda-se bem a Maio para cumprir o seu tempo. Maio mostra o desabrochar da Natureza que obedece e respeita o almanaque da renovação que o curso da Primavera lhe impõe e esta torna-se a mais grata pela chegada de Maio. Sente-se a explosão de vida, de cor, de aromas que, em dias de Primavera, enchem o céu que retoma o seu tom azul mais límpido. É o tempo de acordar os sentidos e agarrar as sensações porque a vida se renova. É Maio, sente-se a celebração da Primavera e, traduz-se, assim, a frescura das tonalidades, a miscelânea de sons que se confundem no ar, a luminosidade que se abre para a leveza que os dias espalham. Por isso, num acto de boas-vindas, as giestas festejam Maio. Estendem-lhe a Primavera num intenso tom amarelo, quente e radioso que brilha por todo o lado. Pelas encostas e bermas dos caminhos e estradas, respira-se o aroma das giestas em flor e, até onde a vista alcança, abraça-se aquele amarelo vivaz. Maio, no calendário dos dias, toma a expressão da Primavera realizada. E tornam-se indissociáveis, no tempo e no espaço. Contudo, Maio também é impiedoso com a Primavera. Maio submete-se aos laivos de frio que o inverno deixou para trás na sua caminhada para outras paragens. E o frio regressa. Deixa-o invadir a atmosfera de Primavera que envolve a Natureza. E o frio, que teima estar presente, perpassa por entre os dias primaveris... e o ditado popular vem confirmar que “em Maio, comem-se as cerejas ao borralho.
05 Abr 10
Abril chega e fazendo jus à voz do povo "em Abril, águas mil", quer lavar os resquícios da invernia, para que, de alma lavada, possamos receber a Primavera que, imperceptível, marcou o calendário de Março. E Abril acolhe-a como o testemunho que nos quer passar, com a leveza dos raios de sol que teimam em romper por entre as "águas mil", para deixar transparecer uma luminosidade mais desperta. Abril acorda-nos os sentidos quando as suas águas o deixam assumir aquele ar primaveril que o torna um recém-chegado desejado. E, ao som dos primeiros chilreios e zuídos que se espalham pelo ar, Abril carrega a frescura das cores que a natureza vai tomando para si, cumprindo o programa da renovação. Abril brilha na lembrança dos malmequeres brancos e singelos no jardim da Casa do Torreão e que se estendiam pelas jarras da sala e do oratório, no quarto da tia Emília. Abril deixa descobrir o branco dos jarros que emergiam entre as largas folhas verdes, nos canteiros do quintal que circundavam os três grandes tanques de pedra onde a água espelhava as ramadas com os seus primeiros rebentos. E Abril traz o aroma da velha laranjeira lá ao fundo do quintal, onde a cor dos frutos sobressaía por entre o verde brilhante das suas folhas. Abril abre-se para uma pausa na memória da Páscoa quando os simbolismos se aceitavam serenamente e nada se questionava: a bênção dos óleos sagrados, o lava-pés, os laudes de sexta-feira santa, a vigília pascal e a festa da Ressurreição. Abril é o estalar dos foguetes e o toque da campainha anunciando a chegada da visita pascal. E Abril aviva a doçura e o colorido de um domingo de Páscoa cheio de sol e de amêndoas. Abril é o acomodar dos nossos sentidos ao desentorpecimento que a Primavera vai provocando no quotidiano.
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