quarta-feira, 17 de junho de 2026

 26 Abr 09

O cavalo-marinho, com elegância de impecável corte, bem talhado pela estilista mater natura, apresenta estatura e porte únicos. Na política, a sua presença corpórea é de sustentável, insuspeita e intocável verticalidade. Com os seus bons companheiros, peixes de pequeno porte e letárgicos na acção, prefere as águas temperadas do seu habitat político onde a sua aparência de ser vivo determinado faz sucesso. Nos ambientes calmos, enrola-se, adapta-se e evolui dependendo do humor e protege-se dos meios conspirativos. Imóvel, apanha e suga tudo o que move, vermes da maledicência e da crítica, plâncton da opinião, crustáceos do comentário, moluscos do artigo político que passam perto de si. Traga-os. Afigura-se um ser pacífico, mas quando se vê ameaçado, luta, aperta a mandíbula do poder, processa o esmagamento da presa para a coarctar. Age muito rápido aos ataques que sofre, poucos são os que o podem alcançar porque, frente aos adversários, movimenta-se na vertical e, ardilosamente, abusa da vitimização enganosa. Faz uso do seu mimetismo, com fácil adaptação ao modelo político  que sirva o seu propósito circunstancial, ambição e poder, e tenta, em queda inusitada, estatelar-se mais à esquerda. Mexe os olhos, à direita e à esquerda, atenta, apercebe-se e aspira as minúsculas ideias de qualquer ser do espectro político que o rodeia. Apossa-se delas. Fecunda-as. Faz a incubação. Impulsionador de quotas para fêmeas na política, fica grávido de ideias apropriadas, desenvolve-as até ao momento de as fazer eclodir, expele-as, em brutais contorções do show-off e elas espalham-se como medidas, decisões e soluções, ilusoriamente transparentes, formatadas de coragem e de determinação pretensas, triunfalmente aplaudidas e impostas pelo voto subserviente do cardume maioritário que o cavalo-marinho domina. E a verticalidade do cavalo-marinho vence.

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