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No grupo dos grilídeos, para a escolha dos candidatos ao canto no parlamento dos insectos daquele jardim quadrilongo, plantado a oeste da Ibéria e banhado pelo mar azul, todos os grilos cantantes se põem a jeito e procuram cantar em uníssono. Vozes desafinadas e desafiantes da linha imposta pelos grilos dirigentes não são bem-vindas. Deseja-se quem alinhe pela disciplina do grupo grilídeo e saiba cantar em uma nota só. Quem não aceita as regras e não quer cantar em uníssono, não pode estridular de forma dissonante porque é, definitivamnte, afastado das opções e corre o risco de passar de inconveniente a proscrito do grupo grilídeo. Quem quiser cantar naquele jardim onde as rosas são predominantes, não pode argumentar com o «Desafinado»* e a última oportunidade é entrar no «Samba de uma nota só».**
**Tom Jobim
O Júnior ou Juninho, como também lhe chamamos, é o único sobrevivente da família de caniches que teve início em 1993. O Bobby que nasceu em 1992, era o pai, jogava futebol com os meus filhos, era muito calmo, fazia muita companhia. Desapareceu, já lá vão uns doze anos, quando se festejava, com foguetes, o dia da Imaculada Conceição. Assustado, encontrou o portão de casa aberto e fugiu. O Júnior, na altura tinha dois anos, acompanhou-o, mas conseguiu fugir do lugar onde alguém o prendeu e apareceu com uma corda amarrada ao pescoço que conseguiu roer porque nunca viveu preso. O Bobby é que nunca mais apareceu. A Mimi era a mãe e morreu de doença, no ano passado. Tinha 14 anos (nasceu em 1994). Ela era a verdadeira matriarca, tivera domínio sobre o Bobby e, mais tarde, sobre o filho. O Bobby e a Mimi foram-me dados por pessoas amigas. Sempre que havia ninhadas, também eu oferecia os filhotes a pessoas conhecidas que eu sabia, de antemão, que os tratariam bem. De todas as ninhadas de filhotes, o Júnior foi o único que nasceu completamente branco como o pai e na primeira ninhada. Ontem, o Júnior fez a desparasitação porque na próxima semana é a altura de ser vacinado e inclui a vacina que é exigida para ficar uns dias no hotel para cães, se for necessário e sempre que não fica alguém em casa para tratar dele, durante a férias. Já completou 14 anos, em 17 de Abril passado. É um lindo cão, já a ficar velhinho mas continua muito meigo e paciente.
Manuel Alegre, ao fim de 34 anos, despediu-se do Parlamento. Como homem de causas, certamente, noutras batalhas políticas dirá «presente» e deixará a sua marca. Por agora, ficam as palavras com que tão bem sabe lidar.
AS PALAVRAS*
Palavras tantas vezes perseguidas
Palavras tantas vezes violadas
que não sabem cantar ajoelhadas
que não se rendem mesmo se feridas.
Palavras tantas vezes proibidas
e no entanto as únicas espadas
que ferem sempre mesmo se quebradas
vencedoras ainda que vencidas.
Palavras por quem eu fui cativo
na língua de Camões vos querem escravas
palavras com que canto e onde estou vivo.
Mas se tudo nos levam isto nos resta:
estamos de pé dentro de vós palavras.
Nem outra glória há maior do que esta.
* ALEGRE, M. (1999): OBRA POÉTICA: Lisboa, publicações D. QUIXOTE, p. 235.
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